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GUY FAWKES - de revolucionário traidor à herói do povo

Um rosto sinistramente pálido, um sorriso malicioso, bigodes finos voltados para cima e uma expressão irônica... Desde que Hollywood apresentou a estilizada máscara em V de Vingança, a imagem de Guy Fawkes se tornou pandemicamente símbolo da resistência e insatisfação popular frente à alguma problemática.
Mas quem é emblemático homem por trás da máscara que está presente nos protestos pelo mundo?


Guy Fawkes foi membro excepcional e um dos idealizadores da Conspiração da Pólvora ocorrida na Inglaterra em 1605, onde os conspiradores católicos, afim de terminar com a repressão religiosa da monarquia, aspiravam explodir o parlamento inglês durante sua sessão de inauguramento em 5 de novembro, em uma solenidade que contaria com a presença do rei Jaime I, sendo Fawkes o responsável pela detonação dos explosivos.


Fawkes nasceu em Iorque, no dia 13 de abril de 1570, e se converteu ao Catolicismo aos dezesseis anos e por ser simpatizante dos espanhóis católicos, adotou também a versão espanhola de seu nome francês: Guido. Foi um soldado inglês que se envolveu em algumas contravenções e se tornou especialista em explosivos e devido ao seu espírito aventureiro ingressou juntamente com Roberty Casteby frente a revolta secreta.
A operação contava com vários conspiradores anônimos que se correspondiam por cartas, afim de dispensar suspeitas em torno de seus atos ilícitos. Porém um dia antes da data prevista para o ato, um erro comunicacional fez com que uma carta com conteúdo incriminador endereçada a um dos conspiradores  fosse desviada e chegasse ao alcance do rei, o que expôs o movimento e seus anseios. O rei aterrorizado com tamanha audácia e se sentindo afrontado, enviou os soldados para uma inspeção no prédio do parlamento, que encontraram e prenderam Fawkes.



Durante o interrogatório Fawkes que resistia bravamente as torturas intermináveis, se mantinha resoluto e desafiante, o que lhe rendeu uma certa admiração do rei que o descreveu como "um homem de resolução romana". Após uma semana de planejados e requintados atos de tortura, Fawkes enfim cedeu e entregou o nome de oito conspiradores e teve sua confissão assinada.


Fawkes e os demais conspiradores foram condenados a decapitação e exposição pública, mas em um último ato de coragem, Fawkes conseguiu se desvencilhar dos guardas que o conduziam para a execução e pulou em uma escada, quebrando o pescoço e se livrando da humilhação pública. Seu corpo assim como os demais indivíduos envolvidos na conspiração, foi esquartejado e exposto publicamente.


A imagem de Fawkes foi amplamente difundida como a face da traição e instaurou-se na Inglaterra a festividade conhecida como Bonfire Night (Noite das Fogueiras), realizada todo quinto dia do mês de novembro em alusão à data prevista para o ataque, onde são organizados um desfile com bonecos referenciais a Fawkes que são atirados em uma enorme fogueira e acompanhados de uma grandiosa queima de fogos, os participantes entoam uma canção que se tornou símbolo da lembrança desse acontecimento:
"Me lembro, me lembro, do cinco de novembro;
Do atentado e da pólvora, se deve saber;
E não vejo razão, para que tal traição;
Um dia se venha a esquecer."


Apesar de ainda existir a Bonfire Night, a imagem de Fawkes como traidor perdeu sua importância durante o decorrer do tempo, e sua coragem e audácia começaram a povoar o imaginário coletivo, se tornando símbolo de resistência e indignação.
Entre 1982 e 83 o escritor Alan Moore ao escrever uma série de romances gráficos, ilustrados por David Lloyd, referenciou explicitamente Fawkes em seu personagem principal, um  misterioso revolucionário, aclamado pelo povo que tenta destruir o Estado, através de ações diretas e que utiliza em seus atos destemidos, uma máscara com alusão clara ao conspirador inglês. Em 2006, a indústria cinematográfica hollywoodiana adaptou os romances de Moore, em um longa homônimo à obra original, V de Vingança, tornando a face de Fawkes conhecida popularmente e assimilada à bravura. 


A partir de então a máscara traçada com o rosto irônico de Fawkes, é utilizada como símbolo de contrariedade e resistência, sendo aderida em diversas manifestações sociais e representada pelo grupo de hackers Anonymous.


Em um processo raro na história, a posteridade transformou um traidor condenado a morte em um justiceiro que inspira lutas e desperta - ainda que involuntariamente- indagações e anseios de melhorias.


"para explodir todos vocês desgraçados bêbados de Scott, de volta para as montanhas sujas de onde vieram".
resposta proferida por Guy Fawkes quando indagado sobre suas reais intenções de explodir o parlamento.


ALMODOVAR- o brilhante sonhador

Polêmico, cult, soberbo e inovador... esse é Pedro Almodóvar Caballero, o enigmático cineasta espanhol que surpreende a cada nova obra e formidavelmente nos apresenta, insere, instiga e nos convida à analisar os mais diversos temas.


Almodóvar nasceu no dia 24 de setembro de 1949 na cidade de Calzada de Calatrava, na província de La Mancha na Espanha. No ano de 1968 no auge da ditadura do general Franco, ele com então 19 anos partiu para capital espanhola, onde trabalhou como funcionário de uma agência telefônica, cartunista, cantor e ator.
Sem dinheiro para custear uma faculdade e apaixonado por cinema, Almodóvar comprou sua primeira câmera 8mm em 1973 quando iniciou suas práticas cinematográficas e a produção de curtas metragens.
A sua primeira obra de destaque fora da Espanha foi Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão (1980) uma obra feminista e provocante que conquistou a opinião crítica e colocou Almodóvar em evidência.
Em seguir foram lançados Labirinto de paixões (1982), Maus Hábitos (1983), O que eu fiz para merecer isso (1984), Trailer para amantes do proibido - não lançado no Brasil (1985), Matador (1986) e Lei do desejo (1987). Estas obras compreendem aquela que os analistas denominam de primeira fase do cineasta, que coincide com a época da La Movida madrilenha (movimento contra-cultural da Espanha pós-franquista).


A segunda fase de produção de Almodóvar, consiste no período de consagração internacional do cineasta e que iniciou em 1988.
Em 1988 Almodóvar lançou  a comédia dramática Mulheres a beira de um ataque de nervos, seu primeiro grande sucesso internacional.
Em seguida o cineasta lançou ¡Átame! (1990), um suspense romântico que rompeu com a tática almodovariana de utilizar vários contextos em um enredo e fixou somente no cenário proposto. A obra foi seguida por De salto alto (1991), Kika (1993) e A flor do meu segredo (1995).


Em 1997 iniciou a terceira fase da carreira de Almodóvar, período em que compreende as obras-primas do cineasta, onde ele alcançou o êxtase produtivo.
Esse período inicia com Carne trêmula (1997) e é seguido por Tudo sobre minha mãe (1999), Fale com ela (2002), Má educação (2004), Volver (2006), Abraços Partidos e A vereadora antropófaga (2009) e A pele que eu habito (2011).
As obras Tudo sobre minha mãe e Fale com ela, consideradas as obras-primas de Almodóvar foram responsáveis pelas mais importantes premiações recebidas por ele, sendo que Tudo sobre minha mãe foi vencedor da categoria melhor filme estrangeiro nas premiações do Globo de Ouro e Oscar de 1999 e Fale com ela recebeu o Oscar de melhor roteiro original e o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro de 2002.



A MENTE DE UM GÊNIO  -  um mergulho no universo almodovariano 




Almodóvar é um cineasta que basicamente cria um cinema de cenários e diálogos. O feminismo sempre se mostrou nas obras de Almodóvar, sendo que de maneira evolutiva tornou-se característico de suas obras.
Suas obras trazem temáticas diversas envoltas em segundo plano seja pela ambiguidade sexual de seus personagens, pelo jogo de aparências entre os gêneros, relações interpessoais de extrema carga afetiva,  apropriação pela mulher de atitudes masculinas e vice-versa ou pela questão do desejo (muitas vezes transcendente e exacerbado).
Os enredos de suas obras são dotados de polissemia e sempre trazem em suas narrativas referências à temas polêmicos como pedofilia, estupro, incesto, traições e homicídios.
Influenciado pelo estilo de Buñel, de quem é fã, Almodóvar recria um universo colorido e multifacetado.
Esteticamente suas obras são caracterizadas pela combinação do universo de personagens e situações exacerbadas com ambientes kitsch, ao som de antigos boleros.
As cores fortes, tanto nos elementos dos cenários quanto nos figurinos, utilizando principalmente o vermelho – que, em consonância com a cultura espanhola, remete a paixão, sangue, fogo – tornam-se estratégias plásticas que ajudam a compor a estética cômica/melodramática da maioria de seus filmes (são as chamadas cores de Almodóvar).
A virtual incongruência estética de Almodóvar paradoxalmente é a chave de sua genialidade. Cenários impregnados de cores vibrantes (o vermelho é sua cor fetiche), figurinos extravagantes, personagens caricatos e trilha sonora deliciosamente brega traduzem a grife almodovariana.



sobre as obras:

Almodóvar iniciou sua carreira durante o período franquista na Espanha, produzindo curtas metragens que são de difícil acesso atualmente, mas que revela um Almodóvar não tão preocupado com a construção da cena, como lhe é característico.
Em Salomé (1978) uma adaptação da célebre obra do inglês Oscar Wilde, nota-se uma construção cênica pobre e sem as famosas cores almodovariana. O filme trata-se de uma conjunção e fratura de épocas (inserção de elementos de períodos distintos em um contexto) e disserta sobre a história de Isaac do Antigo testamento, nele Almodóvar ainda não possuía a prática de se preocupar com a construção dramática da cena, muitas vezes tida como característica vital de sua obra .
Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão seu primeiro longa, consiste numa narrativa sobre três mulheres diferentes interligadas entre si de alguma maneira.
O enredo traz as aventuras praticadas pelas personagens em esboços. Pepi é uma vítima de estupro em busca de vingança, Luci uma dona de casa masoquista e Bom uma cantora de punk lésbica.
Esse filme decisivo para o cineasta, marca a introdução de Almodóvar em temas polêmicos, causando espanto pela famosa cena em que Bom urina em Luci durante um ato sexual lésbico.



Em A lei do desejo, ele demonstra a polivalência de seu cinema ao narrar a história de um diretor de teatro se envolve com um rapaz sexualmente indeciso - Antonio Bandeiras -, enquanto dirige uma peça a ser estrelada pela irmã transexual (que mudou de sexo para manter relações com seu pai), enquanto disserta sobre relações familiares, incesto, questões psicológicas e valores morais.


Em Kika Almodóvar polemiza ao retratar como a vida de Kika é transformada drasticamente após um estupro. A obra traz de maneira implícita um panorama sobre as leis penais (retomada em A pele que habito), sobre relacionamentos extraconjugais e fidelidade além de uma ferrenha crítica à intervenção midiática.


Na sua obra prima Tudo sobre minha mãe, o cineasta adentra no universo dramático narrando sobre o infortúnio de uma mãe que perde o filho e sua busca alucinante pelo pai do garoto. Mais uma vez Almodóvar encanta ao retratar temas polêmicos como Aids, religião, existencialismo e identidade sexual.


O também aclamado Fale com ela, retrata a melancólica cena de dois homens que esperam ansiosos suas amadas despertarem de um coma. Este filme cheio de nuances, reviravoltas e histórias que se entrecruzam, combina elementos de dança moderna e do cinema mudo, com uma narrativa que envolve coincidência e destino.


Em Má educação, Almodóvar retoma o tema proposto em Maus hábitos anteriormente e recebe altas críticas. Dissertando sobre a moralidade religiosa, a homossexualidade, prostituição e pedofilia ele atinge o ápice da polêmica e propõe a revisão de valores.


Em Abraços Partidos, talvez sua mais complexa obra (ou pelo menos em minha opinião) Almodóvar recorre à tática de apresentar uma estrutura fragmentada, enigmática, misturando passado e presente e filme dentro de um filme. Consiste numa homenagem ao cinema, onde ele aborda de maneira singela os desfechos e acontecimentos inesperados da vida.


Por fim A pele que eu habito lançado em 2011, retratou um cirurgião plástico obcecado pela criação da pele perfeita e por sua mulher. Trata-se basicamente de uma indagação sobre a ética e um discurso sobre amores platônicos e sobre a liquidez e busca por conhecimento.


Almodóvar é conhecido por suas predileções no que se diz respeito à escolha de atrizes e atores, dentre suas musas estão Carmem Maura, Marisa Paredes, Penélope Cruz, Rossy de Palma e Chus Lampreave e seu ator preferido é Antonio Bandeiras.

um suspiro contra hipocrisia

Assumidamente gay, Almodóvar aborda a temática de orientação sexual em muitas de suas obras como Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão, Labirintos de Paixões,  A lei do desejo (onde retrata a vivência entre irmãos, um gay e o outro transsexual) e Má educação.
Além disso, o cineasta tem assuntos recorrentes em suas obras como o estupro (abordado em Kika, Fale com ela, O que eu fiz para merecer isto? e Má educação), homicídio (presente em Volver, Matador, Carne trêmula, O que eu fiz para merecer isto?, Má educação, A lei do desejo e Kika), o incesto (A lei do desejo, Kika e Volver), além da crítica aos valores da Igreja (Maus hábitos e Má educação).
De uma maneira descontraída e ambivalente, Almodóvar desconstrói o grotesco explicando-o. Utilizando perversões, exuberâncias e descontroles ele demonstra e denuncia as imoralidades, os abusos e as falsidades que a sociedade alimenta sob a égide da hipocrisia e do discurso do impróprio e importuno.

HENRIQUE VIII - as eloquências do rei promiscuo


Nascido em 1491 fruto do casamento do rei Henrique VII (membro da casa Lancaster) e de Isabel de Iorque (filha do rei Eduardo IV), Henrique Tudor foi coroado príncipe de Gales em 1502 com apenas onze anos, após a morte de seu irmão mais velho, atingido por tuberculose quando contabilizava quinze anos.
Devido à questões legislativas da época, como o casamento de seu irmão não foi consumado, sua mulher Catarina de Aragão foi lhe dada em noivado e cedendo as pressões da rainha Isabel I da Espanha, mãe de Catarina, foi expedida uma dispensa papal (a Bula de Júlio II - alegando que não houve intimidade no matrimônio), o que deixava os dois jovens livres para se casarem.
No dia 11 de junho de 1509, com a morte do rei e após várias controvérsias foi realizado o casamento de Henrique e Catarina. Vinte e três dias depois, eles foram coroados reis e o jovem adotou o título de Henrique VIII.


A rainha Catarina não conseguia dar um filho homem ao rei, de cinco gravidezes somente uma conseguiu êxito, na qual nasceu Maria, o que gerou o temor de Henrique de não ter um herdeiro real. Henrique então deu início aquele que viria ser o maior escândalo sexual da história da coroa inglesa e segundo consta sem fazer questão alguma de manter segredo, ele começou a eleger suas amantes.
Oficialmente, relatos indicam que o rei possuía duas amantes: Maria Bolena e Isabel Blount (com quem teve um filho legítimo, que morreu posteriormente).
Não se sabe como exatamente, mas Ana Bolena, irmã de Maria, começou a despertar a atenção do rei e os cortejos reais se tornaram frequentes. Contudo, Ana se recusava a se tornar amante do rei e vendo que a cobiça de Henrique só aumentava, a jovem propôs se tornar sua esposa.


Obcecado por Ana e pela possibilidade de gerar um herdeiro ao trono, o rei Henrique teoricamente convencido pela jovem, decidiu pedir a anulação de seu casamento com Catarina, uma vez que o divorcio não era permitido na igreja católica, encarregando seu ministro, Wolsey, de obtê-lo junto ao papa Clemente VII, mas este recusou seu pedido, uma vez que o tio de Catarina, o rei Carlos V tinha grande influência sob o papado.
Inconformado com a indiferença papal, Henrique VIII obrigou o Parlamento britânico a votar uma série de leis que colocavam a Igreja sob o controle do Estado. No ano de 1534, o chamado Ato de Supremacia criou a Igreja Anglicana. 



Segundo os ditames da nova Igreja, o rei da Inglaterra teria o poder de nomear os cargos eclesiásticos e seria considerado o principal mandatário religioso. A partir dessa nova medida, Henrique VIII casou-se com a jovem Ana Bolena. Além disso, realizou a expropriação e a venda dos feudos pertencentes aos clérigos católicos. Essa medida fez com que os nobres, fazendeiros e a burguesia mercantil passassem a exercer maior influência política.


Ana foi coroada rainha consorte em 1 de junho de 1533, numa cerimônia magnífica na Abadia de Westminster, precedendo um suntuoso banquete. Ela foi a última rainha consorte da Inglaterra a ser coroada separadamente de seu marido. Além de Catarina de Aragão, Ana foi a única das esposas de Henrique a ter uma coroação.
Ana tinha grande influência sobre as questões e decisões reais, mas o conturbado casamento não obteve a aprovação popular, que aclamavam Catarina e chamavam Ana de bruxa, dizendo que o rei havia sido enfeitiçado por ela.
A busca obsessiva de Henrique para obter um herdeiro do sexo masculino, parecia ter se realizado e no dia  7 de setembro de 1533, Ana dava a luz a um bebê prematuro. Para o desespero do rei, era uma menina a quem chamaram de Elizabeth.
A inteligência e perspicácia de Ana, antes admirados por Henrique se tornou algo inaceitável, após um aborto no natal de 1534, ela novamente ficou grávida em outubro do ano seguinte.
Em janeiro de 1536, a notícia da morte de Catarina (que estava exilada) alegrou os ânimos, mas alguns dias depois o segundo aborto de Ana, foi o ponto culminante para ira do rei.
Acusada de incesto, adultério, magia e conspirações; Ana Bolena foi foi presa em 2 de maio e despejada na Torre de Londres. A coroa capturou e encarcerou cinco homens que teriam cometido os supostos atos ilícitos: Mark Smeaton, Sir Henry Norris, Sir Francis Weston, William Brereton e George Bolena, irmão de Ana. Apenas Smeaton, sob tortura, confessou; os outros juraram inocência. Dúvidas pairam sobre a lisura e imparcialidade do processo, que condenou o quinteto à morte por traição.



Ana Bolena foi a julgamento no dia 15 de maio, no Grande Salão da Torre de Londres, um dia depois de seu casamento com Henrique VIII ter sido anulado por Thomas Cranmer, Arcebispo de Canterbury. Considerada culpada de todas as acusações, recebeu a sentença de morte da boca de seu tio, o Duque de Norfolk.
No dia 19 de maio, apesar da interseção de sua irmã Maria (segundo alguns, grande e único verdadeiro amor de Henrique) Ana foi decapitada diante de uma multidão, que se outrora exalava ódio pela rainha, agora a admiravam e se voltavam contra o rei.

No dia seguinte (20), Henrique anunciou seu terceiro noivado, com a ex dama de companhia Jane Seymor e o casamento ocorreu 10 dias após.  A nova rainha, meiga e dócil, conseguiu que Henrique VIII aceitasse na Corte as duas filhas, nascidas de casamentos anteriores, mas como numa espécie de sina, ela morreu após haver dado ao marido o tão suspirado herdeiro, Eduardo, que porém, viveu somente 17 anos.


Em 1938 iniciando sua perseguição aos seus oponentes religiosos, Henrique ordenou a destruição dos santuários da Igreja Católica Romana, sendo que neste mesmo ano, todos os mosteiros existentes tinham sido fechados, e suas propriedades transferidas para a Coroa.
Como recompensa por sua eficiência, Thomas Cromwell foi nomeado Conde de Essex. Abades e priores perderam seus assentos na Câmara dos Lordes, e só os arcebispos e bispos formaram a representação eclesiástica de corpo. Os "lordes espirituais", como eram conhecidos os membros do clero com lugares na câmara dos lordes, foram pela primeira vez superados em número pelos lordes temporais.
Almejando uma aliança política e temeroso com sua popularidade, Henrique anunciou seu noivado com Ana de Cleves, irmã do Duque de Cleves (importante aliado) que foi realizado no dia 6 de janeiro de 1540.
Porém arrependido já que não achava Ana atraente, o casamento foi anulado poucos dias depois, sob a justificativa de não ter sido consumado.


No dia 28 de julho do mesmo ano, Henrique dava início a seu quinto casamento, dessa vez com a jovem Catarina Howard (prima de Ana Bolena), que encantou o rei. Mas as acusações de adultério recaíram sobre a rainha e após uma detalhada investigação, Catarina foi considerada culpada (supostamente de maneira injusta) e condenada à morte, o que ocorreu no dia 13 de fevereiro de 1542.


No dia 12 de julho de 1543, Henrique casou-se pela sexta vez com a viúva Catarina Parr, que era jovem, meiga e afeiçoada aos filhos do rei. Ela ajudou a reconciliação de Henrique com suas duas filhas, Lady Maria e Lady Isabel. Em 1544, uma lei do Parlamento colocou-as de volta na linha de sucessão ao trono inglês após o príncipe Eduardo, embora elas continuassem ilegítimas.


Os últimos anos do reinado de Henrique VIII transcorreram adoçados pela influência da boa e sábia Catarina. Foram anos ocupados em guerrear a França, a Escócia, a consolidar o poder absoluto, a desenvolver a Marinha, dando o início ao poderio naval da Inglaterra.
Vítima de obesidade e de uma infecção, Henrique faleceu em 1547. Em pouco mais de uma década após a sua morte, todos os seus três herdeiros sentaram-se no trono inglês, e os três não deixaram descendentes.
Durante os 38 anos de seu reinado, exerceu importante papel na política européia, tornando a Inglaterra uma das maiores potências navais da época e separando da Igreja Católica Romana e Igreja da Inglaterra.


"Senhores, humildemente me submeto à lei; conforme a lei me julgou!
Quanto às minhas ofensas, Deus as conhece. Eu as entrego à Ele e peço que tenha piedade de minha alma.

Eu rogo à Jesus, que proteja meu soberano e senhor: o rei.
O mais generoso... o rei mais generoso e nobre que já existiu!"

últimas palavras (teoricamente) ditas por Ana Bolena, diante da multidão que aguardava sua decapitação.


JOHNNY CASH - entre erros e glórias, nasce um mito


Com olhar distante, rosto sombrio, atitudes rebeldes e letras melancólicas. Assim que Johnny Cash emergiu para o mundo na década de 50: como um ídolo cujo exemplo não deveria ser seguido.O man in black, como  ficou conhecido, trazia consigo uma triste história e erros pela qual se culparia todos os dias da sua vida. Ele seria apenas mais um cantor do interior dos Estados Unidos que conseguiu atingir o sucesso, mas dono de um talento nato e uma voz sepulcral, quis o destino que ele se tornasse um dos maiores nomes da música de todos os tempos.

Nos campos de algodão


" Eu era uma criança, esse monstro que os adultos fabricam com as suas mágoas."
Jean-Paul Sartre



Johnny R. Cash nasceu no dia 26 de fevereiro de 1932, em Kingsland uma pacata cidade do estado norte americano do Arkansas, sendo o quarto membro de uma família de sete irmãos.
Os negócios na fazenda da família não deram certo e com apenas 3 anos de idade, mudaram-se para Dyess, onde a plantação de algodão seria a salvação financeira.
Mas uma infância pobre, estava longe de ser o pior pesadelo do pequeno John, que sofria com o alcoolismo e a agressividade gratuita de seu pai.
Com apenas cinco anos, Cash começou a trabalhar na plantação de algodão junto com seus irmãos. Porém no ano de 1944, a tragédia abateu-se sobre sua família.
Em uma manhã do mês de maio quando Johnny pescava perto da fazenda da família, seu irmão mais velho Jack  foi puxado por uma serra de madeira no moinho em que trabalhava, sendo quase partido ao meio. Jack ainda sofreria uma semana antes de morrer. Este incidente iria marcar a vida de Cash, que se sentia culpado por não estar com o irmão no momento; ele inclusive creditava à esse fato seu temperamento.
Neste período Cash, embalado por canções gospel começou a compor suas primeiras músicas enquanto aprendia com a mãe tocar guitarra.

Os primeiros passos pra fama

"Não se conquista a fama deitado sobre leves plumas."
Dante Alighieri




No ano de 1952, Johnny alistou-se na Força Aérea norte-americana e foi destacado para Alemanha. Durante sua estadia em território germânico, ele formou sua primeira banda os The Landsberg Barbarians, (na qual interpretava os primeiros temas que escrevera) foi ainda durante esse episódio que compôs um de seus maiores sucessos  "Folsom Prison Blues".
Quando voltou das forças armadas em 1954, Cash casou-se com Vivian Liberto, que havia conhecido antes da recruta e com quem iria ter quatro filhos, ainda no mesmo ano se mudou com a esposa para Memphis onde começou trabalhar como vendedor e à noite ele tocava em um bar local com sua nova banda The Tennessee Three.
Memphis estava em ebulição, fomentando uma revolução musical no seu âmago que ameaçava explodir a qualquer momento. E Johnny Cash foi o interruptor que faltava.
Em 1955, Johnny Cash encorajou-se e procurou o produtor musical Sam Philips (o mesmo que descobriu Elvis Presley) na produtora Sun Records.
Cash escolheu para o teste uma seleção de músicas gospel, no fim da audição recebeu de Sam a tarefa de voltar para casa e pecar, e depois voltar com uma música que ele pudesse vender.
No dia seguinte, Johnny voltou a gravadora e com a canção Hey Porter convenceu Sam, que entusiasmado impulsionou a gravação dos primeiros hits Cry Cry Cry e a canção usada na auditoria (Hey Porter).
As gravações seguintes de Cash  Folsom Prison Blues e I walk the line alcançaram consequentemente a 5ª e 1ª colocação no TOP 5 Country, e em 1957 ele lançava o primeiro álbum completo da Sun Records o "Johnny Cash With His Hot And Blue Guitar". Os seus dotes de compositor também não passaram despercebidos e rapidamente Cash passa também a escrever para estrelas como Elvis Presley, Roy Orbinson ou Jerry Lee Lewis.
Nesse período Johnny já era o cantor mais lucrativo da Sun (uma vez que Elvis, já havia abandonado o selo), e ele começava a sentir os efeitos negativos da fama. Fatigado pelos inúmeros shows e  descontente pelas limitações do contrato, Cash rompeu com a produtora e aceitando uma lucrativa proposta assinou com a Columbia Records.


Oscilando entre o caos e a redenção

"O caos é uma ordem por decifrar."
José Saramago




Os anos 60 surgiu com força total e seu frenesi, aliado com o ritmo frenético de shows e as constantes brigas conjugais ebuliram de tal forma que Johnny emergiu em um caos total. Buscando um alívio que jamais viria em anfetaminas, barbitúricos  e no álcool; ele tornou-se dependente.
Durante os anos 60 Cash lançou vários álbuns conceituais, como "Bitter Tears", de 1964 e "Ballads Of The True West", de 1965. Entretanto o vício continuava, e seu comportamento destrutivo provocou o divórcio, além de causar várias confusões durante seus shows.
Em junho de 1965, o caminhão de Cash pegou fogo devido a um rolamento de roda superaquecido, provocando um incêndio florestal em Los Padres National Forest, na Califórnia. O incêndio destruiu 508 hectares.
- "Eu não me importo com seus malditos urubus amarelos" teria dito durante esta ocasião.
O governo federal processou-o e recebeu 125,172 dólares.
A carreira e popularidade de Johnny declinava consideravelmente ao mesmo tempo que seus status de rebelde ascendia.
Johnny Cash parecia estar na rota inevitável da auto-destruição, quando conheceu June Carter, uma conhecida cantora country que superava seu segundo divórcio.
A parceria dos dois iniciou-se apenas no âmbito profissional e juntos lançaram a canção Ring of fire, que foi responsável por relançar a carreira de Johnny e alcançou o primeiro lugar nas paradas.
Johnny Cash tinha uma visão muito particular da vida. Para ele, não havia culpados nem inocentes perante os olhos uns dos outros, apenas perante os olhos de Deus. Além de isso lhe ter valido o rótulo de rebelde – ao qual ajudavam as prisões e as dependências de drogas – Cash aliou o estatuto de ídolo ao de ícone da contra-cultura.
Cash começou inclusive a dar concertos nas prisões, o que o elevou a um novo patamar de veneração e fez surgir dois de seus maiores sucessos os álbuns ao vivo Johnny Cash at Folsom Prison (1968) e Johnny Cash at San Quentin (1969).
Não era só o fato de ir tocar às prisões: era a própria atitude com que o fazia. No álbum de 1968 Johnny Cash At Folsom Prision, ele dizia:
“Antes de começar a tocar disseram-me que não me devia comportar assim ou assado, que devia tocar isto e aquilo e que não podia tocar esta ou aquela canção. O que eles não percebem é que eu estou aqui para tocar para mim e para vocês. Por isso, o que querem ouvir?”
Eram atitudes como esta que o elevavam a um nível superior de galvanização: já não era só o músico de exceção, era também o ídolo venerado.



Em 1968 após uma tentativa frustada de suicídio, Cash pediu June Carter em casamento, durante uma performance ao vivo em Londres. No dia 1 de março do mesmo ano, eles se casaram.
Impulsionado por seu amor por June, por sua fé revigorada e pelo nascimento em 1969, de seu único filho do sexo masculino John Carter Cash (os frutos de seu primeiro casamento foram 6 filhas) Johnny decidiu livrar se do vício.
Em 1970 ele inaugurou seu próprio programa pela rede ABC, o “The Johnny Cash Show” e se aventurou no cinema. Em 71 ele lançou a música Man in black, onde explicava seu apelido e sua atitude, quatro anos depois ele lançou sua autobiografia com o mesmo nome da canção.
A sua popularidade porém começou a declinar e suas canções não obtinham grande impacto, e diante desse episódio Cash após 7anos, teve uma recaída com as drogas.
Apesar de se ter tornado no mais novo músico de sempre a ter o nome inscrito no Country Music Hall Of Fame no início da década de 80 e ainda ter tentado o regresso ao formar duas super-bandas, os Survivors e os Highwaymen, ele aproximava-se perigosamente do esquecimento.
Em 1986, ele publicou seu único romance: Man in White; na década de 88, durante uma visita ao hospital, à um amigo Cash resolveu realizar um check-up que diagnosticou um leve problema e foi realizado uma cirurgia no coração.


Os últimos anos - a morte de um homem e o nascimento de um mito


"O segredo de uma velhice agradável consiste apenas na assinatura de um honroso pacto com a solidão."
Gabriel García Marquez



 Nos anos 90, o conceituado produtor Rick Rubin resgata-o para a sua produtora, American Recordings, na qual enceta uma série de quatro álbuns, já sob precárias condições de saúde, devido a um crónico problema de diabetes. Em quatro álbuns, Rick Rubin rejuvenesceu os seus clássicos, dando-lhes novas roupagens para um público mais jovem, intercalando-o com versões de êxitos contemporâneos, de bandas como os Soundgarden ou Beck.
Em 1997, Cash foi diagnosticado com a doença neurodegenerativa síndrome de Shy-Drager, é um distúrbio degenerativo caracterizado por danos progressivos ao sistema nervoso autônomo, tremores musculares, rigidez, movimentos lentos e outras perdas neurológicas generalizadas. O diagnóstico foi depois alterado para neuropatia autonômica associada com a diabetes. Esta doença forçou Cash para reduzir sua turnê. Ele foi hospitalizado em 1998 com grave pneumonia, que prejudicou seus pulmões.
Os álbuns "American III: Solitary Man" (2000) e "American IV: The Man Comes Around" (2002) contém a resposta de Cash para sua doença sob a forma de canções de um tom ligeiramente mais sombrio do que os dois primeiros álbuns da série. O videoclipe de "Hurt", canção composta por Trent Reznor do Nine Inch Nails, foi indicada em sete categorias do Video Music Awards da MTV, ganhando o prêmio de Melhor Fotografia. Em 2004 "Hurt" também venceu o Grammy de Melhor Videoclipe.
Em maio de 2003, June Carter (a quem Cash creditava sua reabilitação) faleceu aos 73 anos de idade. Após sua morte, Johnny ainda produziu 60 novas canções (seguido o pedido que June lhe fez para continuar produzindo). Mas Cash não resistiu a vida sem sua amada e quatro meses depois de sua morte, no dia 12 de setembro de 2003, Johnny faleceu sendo enterrado ao lado de sua esposa no Hendersonville Memory Gardens.
Morria o homem, mas sua voz ecoaria pela eternidade e assim nascia o mito!!!



"Eu me visto de preto pelos pobres e oprimidos
Que vivem no lado faminto e sem esperanças da cidade
Eu me visto assim pelo prisioneiro que há muito pagou por seu crime
Mas está ali pois é uma vítima do tempo".
da canção: Man in black

TOMOE GOZEN - a linda face da coragem



A sociedade nipônica é reconhecida por ser tradicionalmente machista, a submissão das mulheres que iniciou durante a idade média ,se agravou e permanece (ainda que mais tênue) até hoje.
As mulheres japonesas porém, tiveram grande importância na história do país.


No século XII a sociedade do samurai estava em seu apogeu.
Embora sociedade samurai fosse dominada por homens, foram treinadas algumas mulheres nos clãs em artes marciais, especialmente no uso do arco e flecha -  eram as onna bugeisha (samurai).
Algumas delas como por exemplo, a Imperatriz Jingu, Nakano Takeko, Hojo Masako ou Tomoe Gozen tiveram um grande impacto sobre a história japonesa.

Dentre essas guerreiras, se destacou uma jovem "especialmente bela e de cabelos negros; era Tomoe Gozen, que viria se tornar a guerreira mais importante do Japão, cujos feitos foram relatados pelo famoso Heike Monogatari, nos Contos do Heike, documento antigo antigo que traz o relato épico da Segunda Guerra Genpei (1180-1185) e que narra como uma mulher bela e excelente espadachim e arqueira, foi tão exímia quanto qualquer um de seus companheiros masculinos.



 "Tomoe Gozen era a esposa de Minamoto Yoshinaka, um samurai em guerra com Minamoto Yoshitsune. Tomoe era especialmente linda, com pele branca, cabelo longo, e características encantadoras.
Ela era uma arqueira notavelmente forte e muito precisa, como uma espadachim ela era uma guerreira de valor inigualável, pronto confrontar um demônio ou um deus, montada ou a pé.
Ela controlou cavalos irrompiveis com habilidade soberba .
Sempre que uma batalha era iminente, Yoshinaka enviava essa valorosa guerreira, como o primeiro capitão de seu exército, equipada com armadura forte, uma espada enorme, e um arco poderoso; e ela executou mais ações de valor do que quaisquer dos outros guerreiros de Yoshinaka.".
(Contos do Heike).


A Guerra de Gempei entrou para história como a guerra que instaurou o primeiro governo regido por uma casta de guerreiros no Japão.
Quando Yoshinaka consquistou Kyoto do clã Taira, esse revelou o desejo de ser líder do clã Minamoto. Porém, seu primo Minamoto Yoritomo, mostrou-se contrário, o que gerou o descontentamento de seu primo e gerou uma ferrenha guerra entre eles.
Durante a Batalha de Awazu no rio Uji, o número de guerreiros de Yoshinaka era consideravelmente inferior frente ao exército inimigo, a derrota portanto era irremediável.
Dizem que Tomoe gritava ao seu marido:
"Eu quero lutar a última batalha gloriosa a seu lado mesmo a custa de minha vida."

       Nos registros Heike Monogatori dizem que, mesmo ela diante de um exército poderoso, se arremessou em como um raio e lutando como um furacão, ela enfrentava praticamente sozinha o exército inimigo.
      Ainda diante a eminente derrota pelo clã adversário, ela falou para o marido que ira lutar contra o exército inimigo,  para atrasa-los o tempo suficiente para ele poder cometer seppuku (suicídio ritualístico dos samurais), para não ser capturado pelas mãos do inimigo.
Com a morte de Yoshinaka, o destino de Tomoe após a batalha é desconhecido. Muitas teorias sobre o provável caminho tomado pela guerreira surgiram, sendo que o mais provável e aceito é o de uma possível reclusão num monastério budista.
A história da bela guerreira samurai que lutou por amor e demonstrou sua admirável coragem está presente no imaginário coletivo desde então.


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