A CANÇÃO


- Não poderia ser diferente! refletia enquanto da pequena janela fitava a chuva que caía lentamente.

Seu som tão melódico, poderia inspirar o mais afortunado dos seres à compor um poema que enalteceria o amor ou o bucolismo tênue, mas não inspirava a mim... não ali.

Pensava... apenas pensava!
Como se estivesse exausta de minhas psicoses, tentava simplesmente uma alternativa que preenchesse minhas lacunas mais profundas, que suprisse meus anseios e sucumbisse meus tolos receios.
Jamais compreendi esse saudosismo melancólico que tudo acolhe e nunca soube lidar com a consciência masoquista que a tudo afugenta... sempre optei pela tolerância pacifista que não aconchega ou repele: apenas bloqueia.
E não seria este o meio mais eficaz?

Talvez assim garanta meus sonhos mais tranquilos... mas de que vale mesmo os sonhos?
Talvez este zelo exacerbado não me permita ouvir a canção e não possa dançar. Talvez o medo egoísta de evitar uma lágrima não deixe que eu provoque ou experimente o sorriso.

Mas não pode ser diferente e apenas pensava.
A chuva cessou e ainda que tímido surgia o sol, tão radiante e singelo, que até mesmo os pássaros não resistiam e cantavam... e cada vez mais!

Espere... posso ouvir a canção!!!
Solitária, olhei ao meu redor: e enfim sorri... nada mais me impedia!!!



ADULTOS- Vladimir Maiakóvski


Os adultos fazem negócios.
Têm rublos nos bolsos.
Quer amor? Pois não!
Ei-lo por cem rublos!
E eu, sem casa e sem teto, com as mãos metidas nos bolsos rasgados, vagava assombrado.
À noite vestis os melhores trajes e ides descansar sobre viúvas ou casadas.
A mim Moscou me sufocava de abraços com seus infinitos anéis de praças.
Nos corações, no bate o pêndulo dos amantes.
Como se exaltam as duplas no leito do amor!
Eu, que sou a Praça da Paixão, surpreendo o pulsar selvagem do coração das capitais.
Desabotoado, o coração quase de fora, abria-me ao sol e aos jatos d'água.
Entrai com vossas paixões! Galgai-me com vossos amores!
Doravante não sou mais dono de meu coração!
Nos demais - eu sei, qualquer um o sabe!
O coração tem domicílio no peito.
Comigo a anatomia ficou louca.
Sou todo coração - em todas as partes palpita.
Oh! Quantas são as primaveras em vinte anos acesas nesta fornalha!
Uma tal carga acumulada torna-se simplesmente insuportável.
Insuportável não para o versos de veras.

A CANÇÃO DOS HOMENS - sobre os encantos da África


O continente africano, considerado o berço da humanidade, como todos sabemos foi amplamente devastado pelas potências mundiais, sobretudo no período de colonização. Porém muitos costumes e crenças cruzaram séculos e permanecem até hoje.
Trata-se de especifidades mantidas por gerações apesar do modernismo ter assolado o continente mostrando suas cruéis garras.


Dentre essas tradições está um ato milenar praticado e mantido com vigor por indivíduos de uma tribo primitiva da África, o de conceder a cada novo membro (cada criança) uma canção exclusiva e intransferível  que lhe acompanha por toda vida. Este ato é chamado de Canção dos homens ou ainda Tua canção.


Quando uma mulher descobre-se grávida, ela fica incumbida de se afastar da tribo por um período até o momento que tenha inspiração para elaborar uma canção para a criança. Assim que a canção está composta a mãe a ensina para o pai da criança para que juntos cantem e o bebê se sinta desejado e então depois para toda tribo.
As músicas possuem sempre as mesmas notas, mas se diferem nas palavras usadas e no ritmo, é como se fosse uma identidade musical.
Deste modo quando a criança nasce, a tribo reúne-se e entoam a canção, que lhe é ensinada durante a infância.


A canção acompanha o indivíduo por toda vida, e é entoada sempre que se julga necessário e em todas as etapas importantes da vida, seja ele a passagem da infância para juventude, ou quando atinge a fase adulta e até mesmo quando o indivíduo se casa.


Se em algum momento da vida o indivíduo pratica algum crime ou qualquer tipo de infração, ele é levado até o centro do povoado onde se forma um círculo ao seu redor e a canção é entoada. Desta forma eles resgatam a identidade do indivíduo, eles acreditam que o erro não é contornado pela punição e sim pela demonstração de amor e pela lembrança da verdadeira identidade da pessoa, presente na canção.
Quando "sua alma está para ir-se deste mundo" a tribo se reúne novamente como em seu nascimento e cantam para a viagem.


A "canção dos homens" é uma maneira de ressaltar a individualidade de cada um, de acalentar dias atormentados e de manter viva a esperança e a certeza de quem és.
Esse costume milenar, se tornou conhecido pelo ocidente a partir de um texto elaborado pela escritora africana Tolba Phanem chamado Your song e em seu percurso ela ressalta com maestria a seguinte expressão, que explica de maneira sucinta e eficaz esse costume:

"Quando reconhecemos nossa própria canção já não temos desejos nem necessidade de prejudicar ninguém. Teus amigos conhecem a “tua canção” e a cantam quando a esqueces. Aqueles que te amam não podem ser enganados pelos erros que cometes ou as escuras imagens que mostras aos demais. Eles recordam tua beleza quando te sentes feio, tua totalidade quando estás quebrado, tua inocência quando te sentes culpado e teu propósito quando estás confuso."


A "canção dos homens" constitui uma das milhares peculiaridades encantadoras da África, que de forma concisa e magnânima demonstra a genialidade e singularidade desse continente e nos convida a pratica do amor e do perdão e nos aconselha a não desistir e quando o peso das dificuldades ou a alegria da vida chegarem mais perto, lembrar quem realmente somos.


Your Song
Tolba Phanem


When a woman of a certain African tribe knows she is pregnant, goes to the jungle with other women, and together they pray and meditate until you get to “The song of the child.”
When a child is born, the community gets together and they sing their song.
Thus, when the child begins his education, people get together and he sings his song.
When you become an adult, they get together again and sing.
When it comes to your wedding, the person hears his song.
Finally, when your soul is going from this world, family and friends are approaching and, like his birth, sing their song to accompany it in the “journey”.
In this African tribe, there is another occasion when men sing the song.
If at some point the person commits a crime or aberrant social act, take you to the center of town and the people of the community form a circle around her.
Then they sing “your song.”
The tribe recognizes that the correction for antisocial behavior is not punishment, is the love and memory of his true identity.
When we recognize our own song, since we have no desire or need to hurt anyone.
Your friends know “your song”. And sing when you forget it.
Those who love you can not be fooled by mistakes you have committed, or dark images you show to others.
They remember your beauty as you feel ugly, your total when you’re broke, your innocence when you feel guilty and your purpose when you’re confused.



AS BRUXAS DE SALÉM - a intolerância sob à égide do moralismo e fanatismo religioso


A Idade Média foi marcada pela busca desenfreada da soberania da Igreja, e como sabemos afim de impor sua autoridade indiscutível a entidade não poupou esforços, muitas vezes recorrendo à métodos nada convencionais.
Dentre essas práticas autoritárias, destaca-se a intolerância em relação a qualquer outra manifestação religiosa que se opunha aos costumes atribuídos e cultivados pela Igreja.
No início do século XIV, os países da península Ibérica começaram a patrocinar explorações além das fronteiras da Europa, o que proporcionou o descobrimento de lugares até então desconhecidos e a interação com outros povos e culturas totalmente diversas. Já no fim da primeira metade do século XIV, a Europa foi assolada por uma pandemia de peste bubônica (peste negra). Aflitos pelo desconhecimento das causas desse mal,  aflorou no imaginário coletivo a ideia de que a peste tinha na verdade fatores místicos, dando início à uma série de perseguições que ultrapassaram os séculos e permaneceu ainda durante a Idade Moderna.
Alimentados pelo fanatismo religioso, a crença em bruxaria generalizou-se de tal forma que, no fim do século XV, a igreja cedeu à pressão do medo e paranoia populista, iniciando em 1484 uma série de julgamentos pela prática de bruxaria, sendo também publicado em 1486 o Malleus Maleficarum, o mais popular manual de caçadores de bruxas.
Durante o episódio histórico conhecido como Caça as bruxas (que começou no século XV e atingiu seu apogeu nos séculos XVI e XVII),  muitos foram os absurdos praticados. Na Europa as arbitrariedades cometidas com a Família Pappenheimer, figura dentre o mais cruel fato desse período.
A intolerância e o misticismo disseminado violaram o território europeu e alcançou o Novo mundo, onde o caso mais notório e pungente foi o das Bruxas de Salém, onde atos inadmissíveis foram cometidos em nome de uma transgressão jamais comprovada.


A vila de Salém no estado de Massachusetts, era um lugar triste e sombrio no fim do inverno de 1692. Entre as imensas florestas e o mar vasto e calmo, parecia que o mundo estava se fechando para os colonos puritanos que habitavam a área. Duas tribos de nativos norte-americanos lutavam entre si em um lugar próximo. A varíola tinha começado a afetar a população de cerca de 500 pessoas.
"Em 1692, era fácil acreditar que o diabo estava muito perto de Salém. Mortes repentinas e violentas ocupavam as mentes das pessoas", escreveu o historiador Douglas Linder.
A estrutura social também estava sob pressão. Três novas gerações haviam nascido na vila desde a chegada dos colonos originais, cada uma delas aparentemente mais afastada da devoção séria e religiosa ao código bíblico que havia guiado os puritanos da Europa para a imensidão norte-americana. O plano original dos puritanos de criar um novo Jardim do Éden parecia estar dando errado.
Samuel Parris, ministro anglicano, havia se mudado para a aldeia de Salém em 1689, com sua família e dois escravos, Tituba e Jhon, um nativo índio e havia se tornado pastor da vila.
Nesse período a pequena Elizabeth Parris, filha do novo pastor Parris e sua prima Abigail Willams começaram a demonstrar um comportamento estranho; elas apresentavam convulsões e histeria incontroláveis, enquanto gritavam que sua pele queimava.


Levadas ao médico local William Griggs, que pressionado pelo pastor e sem a mínima noção do que seria a causa física da doença, aponta a bruxaria como fator responsável pelo estado das meninas.
Indagadas, as garotas culparam a escrava barbadiana Tituba de praticar rituais místicos e de narrar contos demoníacos.
Praticamente no mesmo instante, a menina Ann Putnam desenvolve os mesmos sintomas de Beth e Abigail e seus pais culpam sua vizinha, a viúva Sarah Osborn de estar em estado de possessão e conduta condizente com bruxaria.
A partir desse momento, outras crianças foram acometidas pelo mesmo mal e as denúncias de bruxaria cresciam descontroladamente.



Em 27 de maio o recém chegado governador, Sir William Phips, fundou um Tribunal especial de Oyer e Terminer composto de sete juízes para julgamento dos casos de bruxaria.
Compuseram o Tribunal: William Stoughton, Nathaniel Saltonstall, Bartholomew Gedney, Peter Sergeant, Samuel Sewall, Wait Still Winthrop, John Richards, John Hathorne, and Jonathan Corwin.
Uma equipe foi formada e encarregada de examinar os indivíduos denunciados; sendo que dentre os métodos de investigação utilizados estava métodos brutais de tortura.


Diante desses métodos, muitos acusados confessaram culpados para se livrar do sofrimento. A escrava Tituba, confessou sua culpa  e inclusive denunciando outras pessoas teoricamente possuídas. Ela nunca chegou a ser julgada, mas foi confiscada de Parris e vendida depois.
Em 2 de junho Bridget Bishop foi o primeiro a ser considerado culpado e condenado à morte, sendo enforcado 8 dias depois.




Dentre os acusados e condenados à forca estão a mendiga semi-louca Sarah Good, a beata Martha Corey, enfermeira Rebecca Nurse, Susannah Martin, Elizabeth Howe, Sarah Wilds, George Burroughs, Martha Carrier, John Willard, George Jacobs, Sr.John Proctor, Mary Eastey, Ann Pudeator, Alice Parker, Mary Parker, Wilmott Redd, Margaret Scott e Samuel Wardwell.
Alguns acusados morreram ainda na cadeia como Sarah Osborn, Roger Toothaker, Lyndia Dustin e Ann Foster.
O acusado Giles Corey (marido de Martha Corey) foi vítima da mais cruel penalidade. Giles alegou inocência da acusação de feitiçaria, mas subseqüentemente recusou levantar-se diante do tribunal; esta recusa significou que ele não podia ser julgado legalmente. Porém, os examinadores dele escolheram sujeitá-lo a interrogatório mediante tortura. Replicando um antigo método medieval, foi colocado pesadas pedras em cima de seu corpo. Ele sobreviveu a esta brutal tortura por cerca de três dias e morreu.


O tribunal foi dissolvido pelo Governador Philips em 29 de outubro, depois de executadas 20 pessoas e mais de 200 presos. Os magistrados de Salem que tinham começado os processos, admitiram os erros entre lágrima e lamentações.
E assim teve fim ao período de horror na pacata vila.



Dentre as explicações para o surto das garotas, estão um possível envenenamento por grãos ou efeitos colaterais da epidemia de varíola que assolou a vila.
Já a acusação dos envolvidos em bruxaria, deve-se segundo pesquisadores à um amplo conflito de interesses; os membros puritanos da vila acusaram pessoas que por algum motivo feriam aos costumes ou regras da sociedade religiosa, ou ainda apenas pessoas que não se enquadravam no quadro social vigente, um exemplo disso é a mendiga Sarah Good.
Além de ser viúva Sarah Osborn, sofreu desconfianças de adultério e travava uma batalha judicial pela posse da terra que herdou de seu primeiro marido, contra seus vizinhos e pais de Ann Putnam.
Já Giles Corey vivia seu quarto casamento com Martha, o que implicitamente (por ocuparem um lugar de prestígio na sociedade) era mal visto pelos demais.
A caça as bruxas de Salém, foi talvez um dos períodos mais brutais da história dos Estados Unidos, em que a ignorância vitimou pessoas inocentes e a natureza rude do ser humano alcançou níveis extremos.





Sobre a família européia acusada de bruxaria e as condições para acusar indivíduos de santidade ou de demonismo.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Fam%C3%ADlia_Pappenheimer
http://www.historianet.com.br/conteudo/default.aspx?codigo=1008

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